A Hora e a Vez do Mercado de Cinema Brasileiro

Cada vez mais o Brasil começa a se firmar como um grande mercado para co-produções audiovisuais com países do mundo todo, pela variedade de acordo de co-produções que mantém e pelas facilidades que tem proporcionado a essas propostas; como espaço para “film comission”; como local que possui boas produções à venda para preenchimento de grades de programação de outros países do mundo. E quem não conhece as telenovelas brasileiras?

Esta evolução teve duas razões fundamentais: o amadurecimento do mercado interno e o impulso dado pelo Governo Brasileiro. Este, por meio de seu ente federal, estaduais e municipais, criou uma série de estímulos a produção cultural. Leis de Incentivo de toda ordem, fundos públicos para financiamento a fundo perdido, empréstimos reembolsáveis, fundos privados sem incentivo fiscal e outros com incentivo;  Os apoios vieram de todos os lados e mais filmes brasileiros foram para as telas de cinema e para as tevês do mundo todo.

A melhor bilheteria na Europa em 2002 foi do filme “Central do Brasil”, co-produzido com a França, com faturamento em torno de 1,6 milhões de euros na União Européia. O mercado cinematográfico no Brasil teve uma das melhores evoluções dos últimos anos, ficando somente atrás do México, e passou de 1997 para 2002 de 62 para 90,6 milhões de expectadores.

Além de subsidiariamente adquirir uma enorme importância para o estímulo ao consumo de outros produtos, o audiovisual é uma indústria rentável no Brasil. No quadro abaixo podemos verificar que o segmento arrecadou diretamente mais de cinco bilhões de dólares (em números de 1997). Estima-se que, hoje, o volume de recursos tenha dobrado e já supere os dez bilhões de dólares.

Brasil: Estimativa da distribuição setorial das receitas da indústria do Audiovisual – 1997

Setores
Receitas
Valores (US$ milhões)
Distribuição %
Publicidade em TV (aberta e paga)
3.025
55
Assinaturas de TV paga
1.430
26
Despesas com Vídeo
660
12
Bilheteria de Cinema
357
6,5
Outros
28
0,5
Total
5.500
100,0

Fonte: Ministério da Cultura do Brasil (1999)
Cálculos GEOPI

No Brasil, os cinemas ainda são ocupados preponderantemente pelas produções norte-americanas, ao passo que as televisões possuem um equilíbrio maior entre o produto nacional e o produto importado. A teledramaturgia – as novelas – ganhou um espaço muito grande e fizeram do Brasil um excelente exportador de conteúdo para outros países.

Uma produção cinematográfica norte americana atinge cerca de 30 milhões de expectadores no mundo, por exemplo. Algumas emissoras de TV no Brasil chegam a mais de 80% (oitenta por cento) dos brasileiros, ou seja, atingem mais 100 milhões de pessoas. Aliás, o Brasil possui o sexto maior parque de receptores instalados do mundo. Abaixo uma tabela que indica a taxa de penetração da televisão nos domicílios brasileiros:

Brasil - Taxa de penetração da televisão nos domicílios (1960-1996)

Ano
População Acima
de 15 anos
Número de
Domicílios
(%) de Domicílios
com TV
1960
40.278.602
13.497.823
4,6
1970
54.130.024
17.628.699
24,1
1980
73.558.675
25.210.639
56,1
1991
95.810.618
34.743.433
79,6
1996
106.169.456
39.599.066
84.3

Fonte: Censo Demográfico, 1960 (p. 125), 1970 (p. 243), 1980 (p. 61), 1991 (p. 241).

Brasil em Números, Vol. 6, 1998. Extraído de Ministério da Cultura (1999) Brasil em Números, Vol. 6, 1998. Extraído de Ministério da Cultura do Brasil (1999)

No caso do cinema, o quadro tem evoluído rapidamente. Em 2002, o cinema brasileiro chegou a ocupar quase 10% do mercado em relação aos filmes norte-americanos. Em 2003, esse número chegou a 20%, mantendo marcos significativos em 2004.

Para que esse resultado se concretizasse com tamanho resultado, o volume de recursos investidos pelo Governo Federal, via orçamento e incentivos fiscais, passou da casa dos U$ 30 milhões de dólares por ano. Abaixo os números em reais desses investimentos (em número atual U$ 1,00 = R$ 2,60):

Brasil – Volume de Recursos investidos no Audiovisual (em reais)

Ano
Volume de renúncia fiscal
de imposto de renda
(Lei do Audiovisual e Rouanet)
Volume de recursos
de outros mecanismos
Total do ano
2000
47.104.000
5.506.000
52.610.000
2001
90.763.000
540.000
91.303.000
2002
79.950.000
3.192.000
83.142.000
2003
112.024.000
11.244.000
123.268.000
2004
101.000.000
15.000.000
116.000.000

Fonte: Ancine – Agência Nacional de Cinema do Brasil (www.ancine.gov.br)

Os próximos passos de desenvolvimento de mercado estão certamente ligados a participação de mais co-produções estrangeiras, mais “film comission” pelos baixos custos de filmagem no Brasil, além da maior exportação e interesse pela compra do produto brasileiro. Estamos absolutamente certos que o Brasil é um mercado promissor para o audiovisual e que vale a pena pensar em ações em nosso país.

Fábio de Sá Cesnik é advogado, sócio do escritório Cesnik, Quintino e Salinas, (www.cqs.adv.br) especializado em audiovisual, cultura e terceiro setor; autor dos livros “Projetos Culturais”, na 5a. Edição pela Editora Escrituras, “Guia do Incentivo à Cultura” e “Globalização da Cultura”, estes pela Editora Manole (cesnik@cqs.adv.br).

Focus 2003. Tendências do Mercado Mundial do Filme. Observatório Europeu do Audiovisual , França.

Pesquisa OMPI (www.wipo.int) e UNICAMP (www.unicamp.br).

Dados: Ministério da Cultura do Brasil, 1.999.

Pesquisa OMPI (www.wipo.int) e UNICAMP (www.unicamp.br).

 

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