Financiamento Público da Cultura e as Mudanças da Lei Rouanet
Outro dia conversava com uma pessoa que ocupou a área
de planejamento no alto escalão federal e que me provocou dizendo
que não falta
dinheiro para cultura. Olhei atônito. Ele continuou dizendo “o
que falta é um projeto, e bem planejado”. Evidente que minha
primeira reação foi a de contrapô-lo com veemência,
dizendo que ele não sabia das dificuldades que passava o segmento,
que cultura nunca foi prioridade e outros argumentos que encontrei lá na
hora. Depois refleti mais sobre o que ele disse. Acho que nosso amigo tem
mais razão do que podemos imaginar.
O Brasil nunca se preocupou em
construir um projeto próprio para
a cultura, de forma clara, objetiva e estruturada. As ações
se limitaram, desde o Império e a vinda da Missão Francesa,
a realizar o papel de balcão clientelista, com atendimentos políticos
isolados e, lógico, cuidando de um ou outro bom projeto – estes
completamente solitários no contexto de uma política geral,
esta sim geradora de desenvolvimento social, por tratar o assunto com a complexidade
e as dimensões que o tema exige. Pela própria natureza do clientelismo
a discussão deixou de centrar foco em política e centrou no
financiamento.
Fruto dessa política do deus-dará, artistas
e produtores culturais agem segundo a cartilha do salve-se quem puder, olhando
pouco a cultura como elemento estratégico, seu papel na vida das pessoas,
e mais como política
de favorecimento pessoal ou de grupo. É comum ler documentos de pessoas
do meio que reclamam dizendo que tal medida do governo não atende
a “classe artística”. Este conjunto de trabalhadores do
segmento das artes é importantíssimo para a construção
e o desenvolvimento de uma política abrangente de cultura, mas não
deve ser visto como o beneficiário final dessa política, que
deve olhar para a sociedade como um todo.
E o financiamento à cultura,
que tanto se fala nos dias de hoje? Este é tão somente um instrumento
na estrutura de uma política
pública da cultura. Quando discutir financiamento ou atendimento de
um conjunto restrito de pessoas passa a ser sinônimo da política
pública de cultura é porque estamos carentes de um projeto
cultural para o país. Centrar nas questões no financiamento
empobrece – e muito – o debate.
Na minha percepção,
o início da discussão é outro.
Devemos começar estabelecendo políticas para as diferentes
dimensões da cultura. Podemos pensar inicialmente em duas delas. A
primeira é a denominada “cultura-tradição”.
A definição mais sutil de uma política “social” de
cultura foi dada pelo editorial do jornal El País, quando publicou
em 1993 um comentário sobre a tese da exceção cultural
e o resultado da reunião do GATT, quando afirmou “A França
pode deixar de produzir batatas, e continuar sendo a França, mas se
deixamos de falar francês, de ter um cinema, um teatro e uma literatura
próprios, nos converteremos em mais um bairro de Chicago”. A
segunda é a cultura como indústria geradora de empregos e sua
importância para o desenvolvimento econômico do país.
Estes dois braços devem coexistir dentro dos governos na construção
de uma política de cultura, com um projeto objetivo para cada um dos
seus vieses e metas a serem atingidas nos próximos anos.
Uma pesquisa
realizada pelo British Council (UK), por encomenda da Unesco, revela que
a participação da cultura no conjunto das exportações
mundiais tem aumentado a cada ano. Em 1980, 2,8% do total das exportações
mundiais se referiam a “entretenimento”. Esse número subiu
para 3,8% em 1990 e em 2000 estima-se que já passe dos 5%. Ora, a
maior parte dos segmentos tradicionais da indústria apresentou queda
de exportação nos últimos anos. Se um segmento está ampliando
tanto sua participação, o que deveria fazer o Estado se não
correr atrás de integrar sua indústria nesse bolo? Ou até fomentar
uma indústria para integrar esse todo. Além disso, e nem precisamos
dizer, a cultura é forte geradora de emprego e renda, movimenta a
economia formal e informal etc. Percebe-se aqui um pouco da importância
do segmento como propulsor do desenvolvimento econômico.
A partir de
1990 os governos criaram, no âmbito federal, estadual
e municipal, mecanismos de financiamento denominados de “leis de incentivo” -
sem, no entanto, entender como iriam integrá-los a algum projeto de
desenvolvimento nacional. O Governo não sabia bem o que queria, mas
o fato é que se tinha em mãos um instrumento excelente do balcão
estatal, que poderia conceder benefícios – pelo menos no caso
federal – praticamente ilimitados. Para os segmentos que trabalham
com a cultura como elemento de desenvolvimento econômico foi excelente.
Quanto à cultura-tradição, o instrumento foi insuficiente
para suprir suas demandas e gerou muita frustração. Os artistas
começaram a querer se tornar experts em marketing e os valores
e posições na sociedade ficaram completamente invertidos.
O
que precisa se reconhecer é que as leis de incentivo tiveram o
seu papel. Provaram que podem ser instrumento eficaz como auxiliar do Estado
para estimular vários setores – do restauro de patrimônio
a produção cinematográfica e que são um importante
componente da necessária diversificação de mecanismos
que temos que criar. Mostraram, no entanto, que não podem ser únicas;
Precisa de outros mecanismos ativos e funcionando: fundos, linhas de crédito,
loterias e tantos outros quanto possível de se construir. As leis
de incentivo não podem ser o centro da atenção; Elas
são uma composição de recurso privado e público
e se situam como mecanismo de financiamento entre o desenvolvimento social
e o econômico.
Algumas medidas para os incentivos podem ser tomadas.Duas
que considero fundamentais: a democratização do investimento
(escalonar o percentual para que as empresas menores possam contribuir com
parcela maior do imposto de renda, o que já acontece com a lei estadual
do Rio Grande do Sul, por exemplo) e o escalonamento de abatimentos com critérios
objetivos (quanto mais se aproximar do interesse público, maior a
dedução fiscal). Deve-se estar atento, nos critérios
de mudança, menos para o agente-proponente e mais para o resultado
da ação cultural proposta e seu benefício para a população.
Nesse sentido qualquer medida discriminatória das instituições
ligadas a empresa, por exemplo, está eivada de erro na sua formulação.
A
partir de um processo realizado com tempo e reflexão é que
devemos sugerir a linha de mudança. Para medidas abruptas é melhor
que o mecanismo fique como está. A mudança deve ser impressa
paulatinamente, dentro de uma linha norteadora coerente e que dê segurança
para os agentes do segmento, além dos financiadores.
Fábio de Sá Cesnik
Advogado sócio do escritório Cesnik, Quintino e Salinas, especializado em cultura e terceiro setor; autor de livros, dentre eles “Guia do Incentivo à Cultura”, “Projetos Culturais” e “Globalização da Cultura”. Diretor do Instituto Pensarte
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